quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Staccato: das Peixoinhas em fleur de passion no espaço literário


No tanque de peixes do Brazilian (nosso buteco favorito) nos esperam as Peixoinhas: carpas e outros peixes aos quais demos os nomes de nossas personagens de ficção: o negro peixe comedor de pedras, Mark Hills; o azulzinho adolescente translúcido, Micael; a laranja efervescente Tarinha e outros. Micael em mim riu muito na noite em que você inventou esse nome: “Peixoinhas”.

Quando paramos diante do tanque para vê-los, os peixes que nos olham, parecendo não nos ver na redondice de seus olhos peixoais, se tornam personagens. Narramos um ao outro, você e eu, olhando os peixes, o que ainda pode acontecer no livro que escrevemos. Quando escrever é entregar-se ao interminável, como nós a Tara, Mark, Malik, Micael, Hank e os que estão nascendo, o escritor que aceita sustentar-lhe a essência perde o poder de dizer “Eu”. Perde então o poder de dizer “Eu” a outros que não ele. Quanto tempo faz que o perdemos? Tampouco pode o escritor dar vida a personagens cuja liberdade seria garantida por sua força criadora. A ideia de personagem, como a forma tradicional do romance, nada mais é do que um dos compromissos pelos quais o escritor, arrastado para fora de si pela literatura em busca de sua essência, tenta salvar, embora muitas vezes nem acredite nelas, suas relações com o mundo e consigo mesmo.

Nossas relações com o mundo se incendeiam do fogo laranja de Tara. Nesse incêndio perfumado de chamas de lavanda, nesse romance barroco-pop-burlesco (definição tão bem assinada par toi, hehehehe!) acredito termos mascarado ou atropelado a modernidade e a pós-modernidade. A delícia do que criamos é como os docinhos de amora, gominha e chocolate que Micael dará a Enbai. Graças a essa alegria, desacreditei da solidão. Hoje, porém, voltei à mais especial de todas elas, a que leio em Maurice Blanchot, antiquado escritor do final do século XX e flamejante início da indecifrável, inominável pós-modernidade que já passou. A solidão essencial é analisada a bisturi e lâmina de microscópio pelo francês que a ela associa o ato da escrita.

A solidão que acontece ao escritor por força da obra revela-se nisto: escrever é agora o interminável, o incessante, do qual não se pode fugir se, de fato, se é escritor, e, no que nos diz respeito, não só porque há filas de pessoinhas esperando a vida na ponta dos seus dedos e dos lábios de Mic. O escritor que você é e eu sou já não pertence ao domínio magistral em que exprimir-se significa exprimir a exatidão e a certeza das coisas e dos valores segundo o sentido de seus limites. O que se escreve entrega, feito um traidor, aquele que deve escrever a uma afirmação sobre a qual ele carece de autoridade, que é ela própria sem consistência, que nada afirma, que não é o repouso, a dignidade do silêncio, pois ela é o que ainda fala quando tudo foi dito, o que não precede a palavra, porquanto, na verdade, impede-a de ser palavra iniciadora, tal como lhe retira o direito e o poder de interromper-se, arrastando-nos por essa forçar que decide nossos dias e exige nossas noites.

Escrever, menino querido, Senhor das Peixoinhas, é quebrar o amálgama que une a palavra ao eu, quebrar a relação que, fazendo-me falar para ‘ti’, dá-me a palavra no entendimento que essa palavra recebe de ti, porquanto ela te interpela – mais ainda na literatura de RPG –, é a interpelação que começa em mim porque termina em ti. Escrever é, em falsa noção de leveza, romper esse elo. É além disso, retirar a palavra do curso do mundo, desinvesti-la do que faz dela um poder pelo qual, se eu falo, é o mundo que se fala, é o dia que se identifica pelo trabalho, a ação e o tempo. No entanto, se é lançá-la na noite, não é na noite que segue ao dia, mas, naquela outra em que a imobilidade se movimenta, a noite encarnada em Igitur.



Retirando a palavra do curso do mundo, a música é tão importante em nosso livro, encarnando-se nas pessoinhas de modos muito luxuriosos. A vivacidade delas é palavra escrita simulando sons de instrumentos que lhes tangem aquilo que, luminoso e úmido, nos pede para ser nomeado “alma”. Nos recusamos, todavia, a atender-lhes esse pedido para que o signo “alma” não as limite, não nos limite. Ele é, afinal, tão válido quanto “lama”. Talvez porque nos neguemos, cada personagem dá ao livro um tom, mas, o que vem a ser isso? Quando numa obra lhe admiramos o tom, sensíveis ao tom como ao que ela tem de mais autêntico, o que queremos designar por isso? Não o estilo, nem o interesse e a qualidade da linguagem mas, precisamente, esse silêncio, que assalta o leitor e o força à entrelinha do mesmo modo que forçou aquele que escreve, essa força viril pela qual aquele que escreve, tendo se privado de si mesmo, tendo renunciado a si, possui nesse apagamento mantido, entretanto, a autoridade de um poder, a decisão de emudecer, para que nesse silêncio adquira forma, coerência e entendimento aquilo que fala  sem começo e sem fim.


Para fugir ao peso dessa renúncia, divirto-me, ou julgo divertir-me pensando em Pierre, pessoinha ainda não estreada na escrita, mas, que tem espiado nossas conversas, feito breves aparições, vestindo, por sua, senhor escritor, teima e seu desejo, terno verde menestrel com frisos dourados. Ele só existe em trocas de ideias a respeito da fase dois do livro, é verdade, e não seria isso o poder desse emudecimento?, mas, quem se importa? Rio, ouço Micael tagarelar, elogiando-lhe a roupa. Ouvindo esse trinar tagarela, acho que nossa obra tem um tom cômico tocante, por vezes, contudo, isso parece, de algum modo, alheio a nós, embora o tom não seja nossa voz de escritores, mas a intimidade do silêncio que cada escritor impõe à fala, o que faz com que esse silêncio ainda seja o dele, o que resta de si mesmo na discrição que o coloca à margem. O tom faz os grandes escritores, porém, a obra talvez não se preocupe com aquilo que os faz grandes; e a nossa, feita de colagens pop e cosmogonias em retalhos, sequer possa ser chamada obra. Não veja nisto nenhuma humildade minha, nem se atormente com o tampouco inexistente orgulho.


Sem se importar com nossos silêncios, nossa grandeza ou nossa pequenez, serelepe feito uma palavra que nos escapa, o sopro de um instrumento que não conseguimos registrar, conversa de beija-flor, Micael tagarela pedindo colo, amor, docinhos e sexo. Apenas estas coisas lhe desaceleram a engraçada tagarelice em staccato (modo de execução instrumental ou vocal no qual os sons de curta duração são separados uns dos outros por uma breve pausa). O silêncio dele é satisfação ou penúria. Nem eu, nem você, nem os dois juntos conseguimos mandar em Micael, porque escrevê-lo é fazer-se eco do que não pode parar de falar – e, por causa disso, para vir a ser o seu eco, devo, de uma certa maneira, impor-lhe silêncio. Proporciono a essa fala incessante a decisão, a autoridade do meu próprio silêncio. Torno sensível, pela minha mediação silenciosa, a afirmação ininterrupta, o murmúrio gigante sobre o qual a linguagem, ao abrir-se, se converte em imagem, torna-se imaginária, profundidade falante, indistinta plenitude que está vazia. Esse silêncio tem sua origem no apagamento a que é convidado aquele que escreve. Ou então, é o recurso de seu domínio, esse direito de intervir que conserva a mão que não escreve, a parte de si mesmo que pode sempre dizer não, embora nem sempre tenha a coragem para fazê-lo, e que, quando necessário, recorre ao tempo, restaura o futuro. Um futuro que contamos em anos humanos e desejaríamos semelhantes aos ciclos constelares.

O que é que se apaga nessa proliferação de pessoinhas iluminando a vivacidade pulsante que não cessa em Micael? Quantas maneiras de amar Micael você ainda vai inventar, me re-ensinando a glória portentosa do espaço literário? Em primeira, segunda, terceira ou trigésima quinta pessoa, vou reaprendendo consigo o segredo fulcral da escrita, reconhecendo no escrever o interminável, o incessante. Diz-se, então, que o escritor renuncia a dizer “Eu”. Kafka observa, com surpresa, com um prazer encantado, que entrou na literatura no momento em que pôde substituir o “Eu” pelo “Ele”. Trinta e cinco vezes ou mais isso acontece a você e a mim. É verdade, mas a transformação é muito mais profunda. O escritor pertence a uma linguagem que ninguém fala, que não se dirige a ninguém, que não tem centro, que nada revela. Ele pode acreditar que se afirma nessa linguagem, mas, o que afirma está inteiramente privado de si. Na medida em que, escritor, ele legitima o que se escreve, nunca mais pode exprimir-se e ainda menos falar para ti nem dar a palavra a outrem. Aí onde está, só fala o ser – o que significa que a palavra não fala mas é, mas consagra-se, à pura passividade do ser.

Iludidos por uma sensação falsa e despudorada de segurança decorrente de sermos pós-pós-modernos, aí estamos nós, alegres, despreocupados diante do tanque das Peixoinhas  que nos fitam com olhos de vida narrada, teimosos, querendo arrancar das águas o feitiço que nos liberte dessa passividade em torno da qual dançamos de dedo erguido feito em volta do centro do Universo. Mais uma palavra inventada por você: “peixoinhas”, acendendo de laranja e azul os passos das outras que nos dominam, é delas a nossa passividade tolerada porque a música de palavras e instrumentos nos arrebata e faz despencar em vertigem no coração sangrento e róseo do mundo. Como numa antiga fita cassete, de dentro das águas nos vêm vozes molhadas, e o que dizem e cantam é ora decifrável, ora mal adivinhável, ora completamente desprovido de sentido, ora de uma clareza de glitter pulverizado contra o sol e a lua. Diante das peixoinhas, Micael me ensina mais uma: ele é Lilikoi.


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Salamandra

Enquanto Ys viaja e namora, minha câmera passeia por um quarto de hotel em Los Angeles. Vejo Tarinha, Paul "Mars" Taylor, Micael e uma caixa de presente recém-chegada da Irlanda. Bem poderiam ser estas as reações, não é?


O garoto… será que é quem? Será que sou eu, hein? *Jardim de Êxtases levando, lavanda, menino pelas mãos, pela voz de Tarinha. Senhora Burke, ah, o sobrenome roxo e ouro antigo rodeado pelo coral fosforescente de “Senhora” chegava em ondinhas na memória de Micael, mas, de onde é que vinha? Ele quase capturava o nome grudado a alguma vivência, perdendo-o no próximo piscar do tempo mais rápido, bem mais rápido que as pestanas lourinhas dele. Micael tinha se aproximado muito da caixa, dos gestos de Tara enquanto ela ainda nem abria a caixa cilíndrica.*

Abre, abre! Será que sou eu o garoto? Mas, como assim? Eu conheço minha sogrinha, conheço? *Chegava a dar pulinhos, o corpo róseo de vida e estátua se movia como um flamingo esticando pernas para o voo. O repouso engraçado do pinto e das bolinhas de filhote se coloria de espera e graça, como se fosse dançar com os dedos vivos da filha a receber o presente da Irlanda.* Burke! Sinéad Burke! Hahahahahahahahaha!*Ele prendeu os cabelos em alto coque, pondo-lhes um palito chinês de madrepérola em tons lilases e rosados, mas, voltou a soltá-los e a prendê-los duas ou três vezes, terminando por os deixar pendendo sobre os olhos aflitos.*



Ela nunca deu bola pra mim, nunca, e a gente ‘tava junto em muitos desfiles,muitos...*Nesses momentos, a voz dele quase adulta se unia à de menino, quase em contraponto. Micael não pensava mais para se contar Lestat, incapaz de notar se havia algum desconforto em Mars que o ouvia. Ele nem percebia o desconforto no próprio coração, no corpo ansioso, oscilante entre as identidades. Rodeando Tara, Mars e o presente, o menino peladinho oscilava em adultices sem força, tomado por memórias de décadas atrás. Uma torrente das lembranças recentes, do dia mesmo, se juntava ao passado fashion e marroquino, a estúdios e passarelas europeus e americanos, a ensaios fotográficos nos quais o Príncipe dos Moleques iluminava roupas e estilistas, muitas vezes quase muito perto da modelo irlandesa, nunca perto demais que Lestat pudesse dizer que a fodera, comera e outros verbos ignominiosos tão ao gosto da falsa falta de classe que ele ostentava em meio à lírica androginia aprisionada pelas ávidas lentes dos mesmos fotógrafos enredados pelo fogo nos cabelos de Sinéad.*

Ai... Hank bem falou que tinha um presente hoje, um presente, Tarinha! É pra mim, é? Que que é, hein? Mars... eu vou ganhar outro presente! Só que vou contar pro Mark que a gente se beijou, isso foi um presente também, e é quase meu aniversário, faltam três dias... Como a mãe da Tarinha sabia? Ela é uma bruxa, sim, senhor, ela nem sabe que eu sou eu, nem sabe! Vou pedir pra ela fazer uma magia...*Calou-se, só um pouco, esperando a abertura do presente por Tarinha. Isso demorava, ele retomou as palavras como fitas.* ... uma magia pro Mark deixar a gente chupar ele... e namorar todo mundo junto, eu vou pedir, e ninguém vai virar salamandra. 







domingo, 24 de julho de 2011

O Incandescente e as balas de tangerina de Marte


Retomo a leitura de um livro especial abandonada em 2005. A retomada se deu há poucos dias, em conversa no MSN com Ys. Ele me passou a música “Holocene”, de Bon Iver, e a memória de O incandescente, de Michel Serres, se acendeu subitamente em mim.

Recordei as relações entre os movimentos astronômicos, as eras geológicas e o cotidiano dos humanos afetos. Holoceno, se não me engano, é o período geológico em que vivemos, e a percepção desses tempos irmana Bon Iver e Michel Serres. Ambos são trilha verbo-sonora das Pessoinhas de Ys e meu Micael em nosso livro Purple Rain.

Em 2005 interrompi a leitura porque não suportei o Universo em uma gota de chocolate morno, mas, hoje estou pronto e sou o incandescente. Redescubro o livro e me assumo no dia em que Paul “Mars” Taylor, o astrofísico baterista da Dead Flowers convida Micael para conhecer a bateria cor de bala de tangerina com glitter.


Como se fossem balas de tangerina vindas de Marte,
Hank “Pateterna” profetizou-a ao menino, algumas horas antes. Entre a profecia e a bateria, Micael tomou suco de romãs com tangerinas, pedido que imitou de Tarinha, na lanchonete. Tara, Micael e Mark Hills almoçavam no quinto dia, em nosso nono mês de jogos.
Hank, Arcanjo; Mars, baterista; Tarinha, récif, étoile; Micael, menino, primevo, messias gay; Ys, demiurgo de pessoinhas e constelações; Moi, antes solitude somos tomos O Incandescente.

“Holocene” nem havia chegado a meu computador, mas, Ys já havia comprado O Incandescente no Submarino... eu acho.

Vou relendo o livro, catando frases feitas conchas trazidas pelas ondas. Algumas são reencontros, cintilam como epígrafes do novo livro: “Não há aqui outra coisa senão a Casa de Deus e a porta do Céu” (Gênesis, XXVIII, 12).


Catedrais cantantes submersas e as almas profundas de todos os seres e coisas me ensinam o método pelo qual aprendo a existir na carne da vida e das palavras.

Acredito que a sintonia fina entre Ys e eu se deva à similaridade de nossas metodologias embasadas no afeto e no signo artístico da música e da literatura.

Algumas pessoas vivem por meio de outros signos, ou são zumbis no excesso mortífero da informação que não gera significados, no entanto, nós precisamos do arranjo semiótico para não enlouquecer de Beleza em toda parte, até mesmo na superfície da feiúra. A feiúra midiática é só a tentativa inútil e desesperada de enganarmos não a morte que fingimos temer, mas, a vida que todos temem de verdade.




segunda-feira, 25 de abril de 2011

En attendant Malik Barka



Esta ascensão é o próprio ser do indivíduo, ele se eleva dentro de si mesmo, partindo do exterior que é trevas para o interior que é o universo das luzes e do interior para o Criador. Isto não é comparável à ascensão do homem para a lua; mas à ascensão da cana até o açúcar.

Djalal Din Rumi




Quando se faz literatura pode-se ser surpreendido pelas personagens. Muitas vezes tem-se a sensação de que elas nos vigiam de um universo paralelo, desejando, por meio de nossas mentes, corações, mãos e corpos experimentar este aqui, o nosso. Poderia ser o contrário, nós xeretando no mundo delas, como uma criança a mergulhar em lago de mistérios e tesouros inesperados.

Na parceria com Ys, tecendo juntos o livro Purple Rain, uma personagem criada por Ys foi crescendo, crescendo, assumindo um lugar de realce cada vez mais nítido, cada vez mais desejado por Micael, por mim e por Ys: Malik Barka. A princípio, Ys narra certa aversão de Tara, a filha de Malik, por ele, uma aversão que não é declaradamente ódio, mas, beira esse sentimento.

A primeira vez em que Malik foi mencionado era a passagem de 30 para 31 de outubro de 2011. Ironicamente, a madrugada do Halloween, uma data wicca, ligada à mãe de Tara Barka: Sinéad Burke, no início dos jogos aparentemente inimiga de Malik.

Dezoito dias depois, temos um Malik mais protetor, menos recusado, conforme Tara vai descobrindo o passado relacionado à Gália e à Irlanda celto-gaélicas, em que ela havia sido Áine, menina amada do jovem príncipe Awen, filho do grande Vercingétorix. Awen era outra encarnação de Lestat de Lioncourt, hoje, Micael Al-Hareck.

Ao longo de minha carreira como escritor errepegista, durante estes 11 anos, por várias vezes mencionei que Lestat de Lioncourt tinha um traficante marroquino de opium. Eu o via em minha tela mental, rapidamente, enquanto o louro vampiro fumava ao clássico narguilé azul com detalhes em ouro. Não me dei conta do exato momento em que Ys fez Malik se tornar esse traficante, mais que traficante, um produtor, um mercador do opium, substância nomeada em meus jogos como “A fada violeta da papoula”. No decorrer dos jogos veremos Malik, ligado aos vampiros, como na narrativa desta noite, se portar como pai protetor da filha:

(12:40:42) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Os clientes europeus de seu pai pareciam saber de mais coisas que ele. O modo como as figuras pálidas chegavam na noite, eram presenteados com perfumes e danças, atraíam a menina, quando ainda sob o teto de Fez.+

(12:41:02) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: “Tara é muito nova, Jon... Ela não é parte de minhas flores.”, Malik dizia em voz autoritária com um medo saltando de sílaba em sílaba, como uma lebre fugitiva. Tara ouviu isso mais de uma vez, e também tinha medo. Malik conseguia dizer coisas a filha só com um olhar, contudo, seus olhos não tiveram força alguma ao encararem os de sua filha, fitando-o no sofá, junto de seus clientes com livros estranhos e brindes suspeitos, o quarto cheirava “às flores vermelho sonífero de papai”. Depois disso, desejou ser menos ocre e mais esmeralda.+

(12:41:10) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Hoje, sua pele oliva nada trazia de Irlanda, nem mesmo uma nuance da alvura de Áine, mas os olhos de Tara não negavam: ela era irlandesa. Poderia responder dessa maneira ao menino que gritava a pergunta com uma voz que era luz chorosa de cem mil vaga-lumes esverdeados, poderia dizer-lhe “Eu sou Tara, irlandesa como a colina”, ou, até mesmo, “Sou sua amada, Lestat... Sua princesa, Awen”. A dor do sangue corroendo-lhe as artérias abrandava ao ouvir o grito desesperado e perdido do rapazinho.+


(12:41:21) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: O cortante sentimento era substituído por um luxuoso adágio de cordas, culminando num sorriso discreto e no fechar de suas pálpebras pesadas. Agora, Tara só ouvia Micael falar sobre Memnoch, Londres, Lestat... Tara não precisava abrir os olhos para notar o corpinho do menino querendo amadurecer em galo formoso, não, em pavão real, desabrochando sua cauda em eras. A moça até conseguia imaginar o verde azulado na voz do menino, voz que agora tinha um sabor de desaforo, de luta do infantil para ser adulto.

Na passagem das noites, vamos sabendo mais e mais de Malik, na escrita saborosa de Ys: “Malik Barka, envenenado em Fez, sem mulher e sem filha, boticário da fada violeta, sufista que não girava mais, só tremia, arruinado mercante de segredos adormecidos”. À criadora dele eu dizia nos comentários a respeito das cenas:

(09:58:54) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: E o que diz do Malik é poderoso de tanta dor, é denso e palpável, se pode ver, sentir.

Por e-mails, conversávamos sobre nossos processos de criação, e, nessas conversas, o nome de Malik é lembrado e discutido com uma nascente paixão que só irá aumentar ao passar do tempo. Ys, acometida de um certo sintoma febril, assim se expressa:

Pois bem, Daniel. Esse processo que sempre se desvia do primeiro objetivo estipulado na minha mente é das coisas que mais me atraem nesta nossa escrita, os caminhos tomados sem que houvesse um planejamento prévio abundante (a inserção de Lestat na cena com Malik, por exemplo), acabam por florear a minha percepção das personagens e esticam os limites daquilo que me é permitido narrar e descrever. Isso tudo é algo que eu gostaria de tratar, mas ainda não encontrei uma forma possível. Além disso, uma coisa que eu ADORARIA ver no livro é justamente a “parte de fora”. Daniel, você tem mais de 40 mil páginas de jogos! São dez anos de imensidão literária! Por outro lado, eu tenho só as páginas que você conhece, nem devem chegar a 80. Ao entrar na escrita com você, eu me vi forçada a criar uma personagem, não, melhor dizendo: eu me vi forçada a criar um nome que poderia ter algum significado e alguma forma bastante nebulosa. Foi isso. Com o passar do tempo, eu fui atribuindo todas as características que você já conhece e, ao fazer isso, eu me sentia correndo atrás da imensidão da história do Micael. Eu queria que minha personagem fosse tão rica quanto ele, mas eu não sabia como e nem tinha tempo hábil para tanto.

Minha resposta é vibrante e deixa entrever a sintonia feliz em que nos encontramos:

Ah, não há vestígios de dúvidas de que Mark, Tara, Sinéad, Malik, Milla e quem mais se esconde na sombra de sua narrativa são seres muito vastos, titânicos, imensos em beleza e riqueza que você articula muitíssimo bem, a ponto de, entre outros, esse ser o motivo pelo qual eu não sei se estou vivo. A chegada desses seres à minha narrativa subverteu muitos universos conceituais em mim, em meu repertório. Suas 80 ou 100 páginas têm o mesmo valor que minhas 40 mil, acredite. Fascinante sua capacidade, Ys, fascinante seu destemor. Você vai se abrindo para as almas da narrativa, com generosidade e amor, amor mesmo. Não tenho dúvida que você e suas crias são a encarnação da minha "Mandala da Cássia", cheia de cores e movimentos.

Cássia é uma grande amiga comum, artista plástica e professora de Estética da Comunicação e História Contemporânea. A “Mandala da Cássia” é uma mandala desenhada (em uma folha de papel) com 36 raios em um círculo com uma frase ao centro, em que escrevemos um desejo. Colorimos os 36 raios a nosso gosto e a guardamos em alguma gaveta ou livro, a esquecemos, e, num dia qualquer, quando nem esperamos, o desejo se concretiza. Ys é sem dúvida a concretização de um desejo de parceria em RPG que escrevi numa dessas mandalas. Ler Malik crescendo em intensidade e beleza, a cada noite um tanto mais, me dá certezas de que aquelas cores ritualísticas tiveram o poder de encontrar em minha própria cidade, na faculdade onde leciono, uma parceira brilhante como YS, cujos textos vou sorvendo, ávido.

O mercador de opium estava no passado do meu Lestat, voltando com força inesperada nas páginas em parceria com Ys. Sendo um sufista e tendo uma visão mítica do universo, esse mercador carniçal via em Lestat um anjo. Jibral – era assim que Malik nomeava o vampiro. Jibral é Gabriel, em árabe, um anjo cósmico de 600 asas de diamantes, safiras, rubis, topázios, a quem o sufista entrega a filha jamais tocada por Lestat. O vampiro de Anne Rice sempre foi irreverente, amoral, e, apesar disso, estranhamente honrado. Nas cenas com Malik, essa ambiguidade se acentua, seja nas respostas de Ys, numa noite:

(03:30:44) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Micael era o primeiro ser a enfeitar com belezas próprias a portadora de vidas inteiras. Tara olhava tudo pelo espectro das lentes, a pele branquinha de seu amado era como um apetitoso sorvete de mousse de uvas, cremoso e repleto de delícias aos olhos e boca, o universo dentro do estádio revirava-se numa nebulosa tempestuosa que, inocentemente, a mulher imaginou ser capaz de controlar, de reger os movimentos do único corpo que a multidão formava, criando estrelas de amores ali, na ala esquerda, nebulosas de medos e feridas abertas bem na frente do palco, Mark seria feito de matéria negra a planeta negro, orbitando majestosamente a elipse do Superdome, sem acreditar nas estrelas amores e medos, traçando no espaço um caminho que diria uma angústia latente, sublimada no som da atmosfera local. “Você é brilhante Gigante Violeta, Micaellus será seu nome, plim!”, brincou Tara de ser fadinha da ficção e fazer do menino a estrela maior da galáxia que acabara de enxergar.+

(03:30:51) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: E, então, veio mais um beijo... Mas, não, não, este não tinha culpa nem lampejos de bravura vaidosa, não. Era um doce desaguar de águas saborosas, límpidas de qualquer engano humano, no oceano enverdejando cânticos visuais num bradar que era tão purpúreo quando o olhar de ambos. O beijo não era compatível com a pequenez de menino; de olhos fechados, Tara não sentia-se beijando Lestat, beijava um além de tudo, um anjo caído na Terra. O Jibral de Malik encantava sua filhinha mais um vez com vaticínios que iam além de qualquer anunciação à Virgem, cumpria Micael a vontade do pai de Tara: “Você me levará ao paraíso um dia, querido Lestat?”, perguntava de vez em quando o velho mercante ao amigo de outras terras. Embora fosse uma pergunta a qual não coubesse uma resposta lógica, nem mesmo verdadeira, era com o coração que o marroquino a colocava. Era a um paraíso que Lestat levava a “salvação púrpura” de Malik, pouco importa se o paraíso não era o islâmico, era o paraíso de Tara, certamente que seria estelar!

noutras noites:

(01:00:37) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Tara estava de boca aberta, parecia ter ouvido a melhor história do mundo. Ela colocou a estrela ametista na mesa do escritório, como se ainda não fosse digna de possuí-la, beijou o rosto do pai com um abraço dependurado no pescoço+

(01:00:52) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: e confessou-lhe ao ouvido um pequeno segredo: “Papai, foi a Adorável que encontrou... eu vou deixar ela aqui, na sua janela, a noite toda... pra ela matar a saudades da família, que nem eu com a foto da mamãe, amanhã eu venho buscar minha estrela, minha!”, saiu correndo, feliz e satisfeita, para o quarto de banho. Quando já havia horas que ela dormia, Malik sorria, olhando a ametista e conversando com o amigo Lestat, jogado no sofá enquanto fumava o naguilé já preparado por Malik. Já tinham falado sobre inúmeras coisas, o velho divertiu-se com as fábulas do amigo sobre a América, sobre shows de rock e chuva roxa e “esses amores terríveis de Lestat”, como o próprio sr. Barka nomeava as incríveis aventuras do rapaz.+

(01:01:00) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: O residente da mansão atendeu aos pedidos do “anjo” que queria ouvir sobre profetas e “os sufistas que giram”, sobre a mulher ausente, “Sinéad é uma linda mulher, amigo... muito ocupada e austera”, Malik mostrou-lhe escritas próprias de sua época na Turquia, “um lugar tão cheio de incenso e pedras preciosas, Jibral, você deve conhecer, não é mesmo?”+

(01:01:07) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: “Uma pena você não poder comer, o bolo de tâmaras e amêndoas que a mulher de Yusuf preparou está delicioso”, provocava o sufista. Foi mais uma bela noite, mas Lestat sentiu falta de algo. “Ah, Tara?! Hahaha, seu presente é a proteção dela no mundo imenso, lá fora, sabia? Ela encontrou isto hoje”, mostrava a ametista para Lestat, “Eu disse-lhe que é uma estrela, você pode imaginar como a menina ficou feliz, não é? Hahaha.” O vampiro parecia sorrir de olhos fechados, e disse que Malik deveria procurar por “ametista” naquele lindo volume de mitologia, cujas palavras desfilavam com força e beleza tão ausentes na maioria dos livros sobre o assunto. Despediram-se e o sufista correu para as páginas do livro. Ametista era proteção contra intoxicação. Malik foi até o quarto da filha, que dormia calmamente, e deixou a pedra no criado mudo ao lado da cama.

seja nas minhas:

(04:03:11) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: Ainda falta muito, muito? *Se fosse Lestat e se visse, riria de si mesmo, de como podia ser tão naturalmente despropositado, egocêntrico com aqueles seres feitos de generosidade, mesmo se Hills não se visse assim. Jibral. Jibral de Malik queria levar a estrelinha de ametista para longe dali, para brincar com Adorável nos campos coloridos de papoula. Muitas vezes, Lestat drogado se imaginara dançando e cantando em campos de papoulas, aderido ao sagrado insano e bonito, todo sagrado é insano, todo sagrado é bonito. O sagrado não é bonzinho e fácil, não, ele sabia disso, mesmo se o sagrado fossem pipocas de melado e xícaras com chocolate quente. Benditos campos de papoula de Malik! +

(04:03:31) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: Benditos nos séculos dos séculos! Glória ao que é sem princípio! Glória nos séculos dos séculos! Para sempre, Glória! A glória multicolorida de sorvete e confeitos. Micael percebeu que Tara o fazia sempre lembrar-se de Malik, só podia mesmo ser a filha do mercador, o sobrenome, as similaridades, e aquela ametista-estrelinha. Então ele conhecia a dona da Adorável? Adorável era a dona, essa, lírio-laranja. Que engraçado! Ele estava tão criança que quase podia ir caçar pedras com Tara e Adorável. Sentiu tanta saudade de não ter vivido isso. Levou o dedo indicador direito ligeiramente dobrado à boca e lhe mordia a primeira falange, nervoso, repetindo a pergunta.* Demora, chérie, demora?*Poderia parecer desrespeito artístico, não era, ele amava a arte de Hills, estava fascinado por tudo que vira, ouvira e sentira nas fibras do corpo de efebo. Por isso mesmo não suportava o desejo de ter Mark e tara só para si. Infantil, findando, aquele era Lestat de Lioncourt.*

O contraponto entre Malik Barka e Lestat de Lioncourt evolui como canções de Nick Drake, como “Cello Song”, soturna, terna e inteira, no sangue das palavras em ouro de Ys:

(01:16:56) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: “Quanto tempo faz? Quando foi a última vez? Um ano mais termina e eu nada mais sei. Quantas noites eu fui o espírito mais abençoado da Terra? Não importa quanto tempo tenha passado, em cada pôr do sol eu me sento ao portão, vejo o sol de Alá tingir a terra de laranja, de ocre, de vermelho... Todos os dias se repetem. O sol arrasta a lua e eu arrasto minha alma, me apegando não sei como, em lembranças? Em sentimentos de cuja alegria só restou o espectro que passou. A noite chega e não vem minha Salvaçãozinha Púrpura, não volta com pedrinhas, nem com flores, nem com passinhos sujos de poeira do tempo. Porém, querido amigo, me mantenho ali, sozinho, vendo o céu mudar e o tempo passar... Que passe! Que passe logo! Quanto a ti, teria Alá conclamado tua luz para longe desta casa impura? Ou foste tu sonho, ilusão... engano? Ah, não, não pode ter sido, Jibral, amigo Lestat! Tu foste meu sinal de Alá, minha Baraka dourada! Foste, de minha Tarinha, um padrinho anjo+

(01:17:06) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Onde tu cantas, agora? Com quem tu conversas? Quem tu amas, meu amigo? Longe, sonha, então, com a minha vida de outrora, para que sonhes a verdade e a verdade seja feita... Ainda mantenho a porta da sacada aberta para ti. Aparece, Jibral, conta-me do mundo que deixei para trás há muito, dos amores de anjo, os amores terríveis, tão terríveis quanto teus olhos de cem mil joias. Fitá-los, meu amigo, os olhos de Deus feito em carne e pedrarias, é bênção... Abre teu sorriso mais uma vez, onde quer que estejas! Dentes de marfim perolando a escuridão azul de meu escritório, tuas mãos presenteando o meu presente... Pequena Adorável. Tu te lembras de quando minha filha partiu? Tu te lembras da ametista que teus dedos brancos tocaram? Ah, e tu pediste para que eu lesse sobre ela, pedrinha que protegeria Tara, protegeria ainda mais por ter tocado tua pele sem cor, imaculada. Não sei mais nada de Tara, faiscante amigo, mas, tenho certeza de que ela está protegida pela estrela que Adorável encontrou+

(01:17:17) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: 'Por que continua aqui, velho?', tu me perguntarias, certamente. Para onde eu iria? Meus pais foram assassinados, não tenho lugar no mundo. Sou, pois, como as flores que cultivo, imóvel, esperando para que alguém me apanhe, me arrebate... Tão vivamente me lembro de ti, naquela noite em que me pediste para ver sua 'fada violeta'. Ainda sorrio, agora, com tua bela imagem noturna, sob a lua crescente do Islã, dançando dança não dos homens, no meio das desavisadas damas do sono quase divino (não, meu amigo. Nem mesmo hoje me convencerias da totalidade divina das papoulas e seus eflúvios), erguendo aromas e pétalas ao ar. Ontem, antigo amigo, eu quis ser sagrado... acabei caindo na cama dormida das flores. Não girei, nem dancei como tu. Seria eu muito infantil ao esperar por ti ainda? Ao desejar que me leves ao paraíso, quando chegada a hora, como fizeste com Muhammad? Como flor, sonharei em ser arrebatado da terra na qual criei raízes que me envenenam. Quando chegada a hora, leva-me em tuas asas, Jibral.+

(01:17:41) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Noite após outra e mais uma, a porta estará aberta. Se possível, ama minha filha, olhe por ela como tu fazias. Bismillah Ar-Rahman Ar-Rahim. Malik Barka.”. Pedia em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso e assinava o pai de Tara numa página de papel escuro no Porcelana de Jade, escrito em tinta dourada, preparada artesanalmente por ele mesmo, e nomeado “Das asas cairão pérolas, rubis e ametistas protetoras”. Em Fez, a manhã era ainda criança, poucos raios de sol brincavam no céu sem nuvens, despertar róseo e alaranjada que atraiu o olhar de Malik. As cores refletidas na abóboda celeste provocaram um sorriso, marcado pelas rugas, no rosto do sufista. “Teus olhos neste céu matinal, anjo”, disse o velho, após guardar o seu diário esverdeado. Malik acordava antes de Yusuf, hoje, ele acordou ainda mais cedo. Abrindo a caixa de madeira que o empregado trouxera na manhã de ontem, Barka pegava um pequeno frasco de vidro fosco, levantou-o contra a fina luz vinda da janela+

(01:17:52) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: achando curioso como o líquido, considerado imundo, refletia um purpurizante vinho profundo, pensou em Tara, abriu o pequeno tubo de ensaio e sentiu-se invadido pelo cheiro da infância de sua filha, misturado ao conhecido odor do óleo extraído da Commiphora myrrha. Indagou-se de quem seria, de onde viria essa vida rubra, quis que fosse de Jibral. “Por hoje, será!”, exclamou Malik, antes de colocar os lábios na abertura e fazer o sangue descer, gotinha por gotinha, para dentro de seu corpo, misturando-se ao seu, encharcando-lhe tecidos e profundindo sagração e salvação escondidas da percepção. Dormia na cadeira o velho mercante, foi arrebatado agora, partia para o paraíso, embora a viagem fosse ter um fim.

Só a dança entre Malik e Lestat renderia um ótimo livro em Purple Rain, dentro de Vampiros na internet. Sinto-me, agora escrevendo a postagem, após nos ter lido (Ys e eu mesmo), atordoado como o leitor borgiano na biblioteca infinita. Mas, preciso, preciso, como presente de páscoa atrasado, muito atrasado, à amiga Ys que viajou, terminar esta dança. Preciso mostrar como teci, noutra noite, outra resposta:

(12:15:21) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: *Quase três anos sem ir aos campos de papoula, Lestat ainda recordava o amigo e fornecedor Malik Barka, nunca o esqueceria, não só por ele produzir o melhor opium do planeta, mas, também porque havia algo especial no homem, aquele fio de ouro que os amores de Lestat chamavam de momento dourado, nele, existia o tempo todo. Gotinhas ínfimas do sangue de vampiro acompanhavam o pagamento pelo opium, jamais a drenagem do sangue do homem e a troca completa pelo de Lestat, jamais! A principio, só por molecagem foi que Lestat ofereceu o vitae ao homem, sem a intenção de o imortalizar.+

(12:15:39) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Sempre contrário a ter servos carniçais: nem humanos nem imortais, aqueles viciados em sangue de vampiros irritavam o francês. Ele escolhia beber as vítimas e acabar com elas; bebê-las só em golinhos não fatais, ou, mais raramente, embora não tanto quando as leis da Família o exigiam, abraçar alguma alma interessante em corpo atraente e gerar um novo imortal. Malik se enquadraria nesse rol dos imortalizáveis, porém, o Príncipe dos Moleques não se permitiu. Ele gostava da mistura naquela alma de traficante.O opium radiante seria “o mal”, mas, o conhecimento sagrado sufista seria “o bem”, e todo aquele amor pela garotinha, a filha, Tara, e o desconforto em relação à mulher Sinéad seriam o indizível. +

(12:15:55) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Malik representava para o vampiro uma encarnação de arte e religião profundamente arraigadas ao crime, de maneira elegante e consistente, despertando todos os tipos de curiosidade na mente e no coração estetas do francês. Não era sempre que Lestat voava, solitário, no puro corpo imortal, ao Marrocos, para buscar a fada violeta. Por vezes passava meses sem ir. Noutros tempos, aparecia semanas seguidas. Houve temporadas que ficava nas cercanias, nas propriedades de uma amiga vampira, antiga, marroquina, reclusa, dona de incomparável discrição e hábitos reservados, pouco conhecida de mortais e imortais não só do país. Irene Delora era conhecida como proprietária de terras em que funcionavam escolas alternativas para meninos e meninas especiais, vindos de todo o mundo. Na casa dela, uma mansão marroquinha, o vampiro Lestat passava algumas noites. Poucas, é verdade, e quase nem via a anfitriã. +

(12:16:15) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Nessas poucas noites, visitava Malik repetidamente, para fumar com ele, dar-lhe a droga vermelha, e conversar. Lestat se sentava humana e sossegadamente, vestindo jeans e camisetas justos, simples jovem do século XX, bonito, é verdade, bonito a valer, de voz ambígua e rouca, sem ansiedade, como se avaliasse em Malik uma estátua de cultos mortos há tempos, perdidos nas cavernas do Oriente Médio. Chamando-o de “Jibral”, pedindo-lhe o paraíso, contando-lhe historinhas sobre a filha Tara, querendo saber dos terríveis amores do moço, Malik provocava-lhe prazeres verdadeiramente sexuais, maiores que os beijos leves de troca de sangue.+

(12:16:28) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Não, não, Lestat nunca dera o rabo ao marroquino, nunca, não por não querer. Não sabia sequer se o homem seria desse tipo. Podia ler-lhe a mente, o fazia muito pouco, quase sempre por descuido, e evitava ser alcoviteiro, se permitia entrar nos cantos coloridos daquela alma, só se fossem quadros do cotidiano da menininha filha. Lentos os dois, lentas as conversas, lentos os sentimentos. O mortal regia o imortal, pedia-lhe o paraíso e lhe oferecia uma orquestra de papoulas, entendiam-se no sagrado que um via no outro. Olhares exteriores poderiam jurar que as trevas se enamoravam das trevas. Um milímetro à esquerda ou à direita, anjos afirmariam que a luz estava apaixonava pela luz. “Você me leva ao Paraíso, Malik Barka, não me faça um mercador, eu não o sou”, dissera Lioncourt antes de ter sido arrebatado por Memnoch.+

(12:16:44) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Sumiu um bom tempo ao voltar, e, quando vinha, não era mais o mesmo, havia conhecido de perto a dolorosa glória do Éden, do Paraíso, do Sheol, do mundo em formação, da História vista in locco. Não sabia o que dizer ao ser chamado “Jibral” e pela enésima vez chamado “anjo”, doía de raiva e amor por Memnoch e o Encarnado, doía ainda mais pela sublime impotência da humanidade. Doía pela dor de Malik sem Tara, que essa partira, deixando a casa arenosa e fosca. Mais ainda o mercador pedia ao anjo mercadorias impossíveis, nunca a imortalidade, afinal, essa estava ao alcance, ali mesmo, na ponta da língua e dos belos dentes retráteis do louro felino. +

(12:18:02) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Os dois haviam perdido, sucumbido, continuavam belos cada qual a seu modo, talvez mais que antes. Adorável permanecia no colo de um e outro, saudosa de Tara. Nem para a filha Malik pedia o veneno rubro e carmim definitivo, naquele novembro eterno que se alastrava pela casa e duraria anos, séculos, milênios no coração acalmado só ao escrever nas douradas páginas da “Porcelana de Jade”.+

(12:18:23) Micael Al-Hareck fala para Tara Barka: Contei, claro, oras, ele disse que eu era menininha, droga! Eu disse sim que comi você, disse mesmo! *Malik lhe pedia que amasse e cuidasse da filha, o menino ria, feliz e furioso ao responder a ela, ela, a filha, que sim tinha mesmo dito a Mark que a comia. Desavergonhado, sem-vergonhinha e despudorado, esse Micael era o anjo louro de Malik.*


Sagrado, volúpia, luz e trevas nessas duas personagens: Malik Barka e Micael Al-Hareck e nos processos que as criam. Neste blog, caro leitor, damos somente uma amostrinha do que acontece como se fosse secundário. Afinal, Malik nasceu para ser coadjuvante, o pai não tão amado da protagonista de Ys. Aos poucos, Tara o foi recordando, perdendo a certeza de que não o devesse amar, sentindo saudades da infância no Marrocos, tempos em que o amor de muitos tempos lhe visitava o pai, prometendo a si mesmo sequer a olhar. Poderoso, o sufista nos vence no território em que nos consideramos senhores.


Ele, escritor perdido no fim do mundo, leitor de si mesmo, ultrapassa nosso planos, como o Crescente se torna Plenilúnio. Hoje, Micael espera viajar ao Marrocos, para abraçar o velho amigo e pedir-lhe a filha em casamento, ele, o Jibral das 600 asas, volta, humano, menino, anjo transmutado, como a pergunta retórica do significado de Micael: “Quem é como Deus?”. Sou nada mais que um escritor errepegista, porém, como Micael, sonho a noite ou dia em que Mic voará ao pescoço de Palik para o encher de beijinhos doces como confeitos açucarados. E eu, aquele que acredita manipular Micael feito de letrinhas e frases, mais ansioso que o moleque, anseio pelo momento em que a narrativa nos levar a esse reencontro.

Link de algumas imagens:2) sufism_by_lalarukhahsan:
3) Golden_Words_by_MacNapier:





quarta-feira, 2 de março de 2011

Os significados da palavra "carinha"



only_friend__by_agunomu-d378tlz:


Quatro meses de jogos com Ys se completaram no dia 23 de fevereiro de 2011. Dentro da narrativa transcorreram apenas quatro dias e noites na vida das personagens. Micael é remodelado por essa parceria inovadora entre mim e a jogadora intérprete de Tara Barka e Mark Hills.

Enquanto nosso editor não nos delineia o projeto definitivo do livro impresso Purple Rain, seguimos jogando, criando, experimentando o inusitado prazer de tecer as vidas quase milagrosas de Micael Al-Hareck e os amores em torno de Barka, Hills e os componentes da Dead Flowers.

Centenas de páginas de escrita literária e conversas no MSN vão surgindo em torno de músicas brilhantes, na maior parte desconhecidas da mídia global em todas as vertentes tecnológicas. Acordes suaves e incisivos, cheios de cores ora esmaecentes, ora intensas, guiam trama e diálogo entre os autores.

Ao som de músicas que nomeio opiáceas, mas, que Ys me ensinou pertencerem a gêneros como dream pop e shoegazer, em certa noite conversamos a respeito dos significados da palavra “carinha”, muito empregada pelo rocker Mark Hills ao chamar o menino Micael Al-Hareck.

 Little_Guy_by_JuulsBond:

Ainda posso respirar a alegria simples de cores vivas na surpresa da revelação em que dicionário e afeto se mesclam em harmonia e delicadeza, na despretensiosa conversação de MSN madrugada a dentro.

Enquanto Ys comentava uma canção de Van Morrison: “Listen to the Lion”, e dizia que Mark, ferido de amor pelo garoto:
é o Leão a ser ouvido,ou o Leão querendo ser ouvido... ou calado... tudo o que o Morrison faz... ‘Ouça o leão dentro de mim’...’todo o meu amor desaba...todo meu amor vem tropeçando...’ (...) ‘e eu devo buscar a minha alma... eu devo buscar minha verdadeira alma’ (...) ‘e todas as minhas lágrimas fluem.... todas as minhas lágrimas como água fluem...para o Leão dentro de mim’ (...) são pouquíssimos versos... repetidos de todas as formas... tudo termina num fluxo de consciência... num navio até Caledônia, a casa da alma”.

Eu respondia que o navio à Caledônia me lembra o barco de Ísis que levava Lestat à casa da Deusa quando ele se dava muito mal em algo, e a música de Van Morrison é sexy, combina com Mark, com o que ele passa hoje, pois Mark está em um grande dilema sensual e afetivo.Ys complementa, a respeito da música que
“ao vivo, nesta versão, quando o Morrison canta sobre lágrimas fluindo como água...ele pede por água... como se estivesse morrendo de sede. Está sim... no meio de um turbilhão”

e acrescenta, citando um trecho de minha cena de jogo:
"O rosto do menino corou especialmente, ele se levantou, abraçou o homem, pendurou-se nele, nu e róseo, sentiu o suor nos antebraços de Mark",

Afirmando a beleza do que, para ela, eu fiz:
isso que você escreveu de sentir o suor nos antebraços do MArk é impecável interação.... e tão delicado.

E eu precisei, de dentro das sensações, lhe reafirmar que
cada detalhe de suas pessoinhas seria notado por meu narrador e homenageado, se vivêssemos mais anos, e que ela pode anotar isso, eu acabo me empolgando por esses seres, vendo-os pelos olhos do Micael.

Minha parceira responde que isso é “lindo... lindo demais... isso é tão orgânico, corpo... é como ser corpo mesmo em escrita... lindo demais ".

E nesse contexto em que impressões se trocam, vivas e corpóreas, comentamos os significados da palavra “carinha”, há noites e meses (dentro e fora da narrativa) usada, mas, agora delineando-se feito o sabor construído a dedo, como se fosse de improviso, para uma iguaria servida a reis.


Little_Ivan_by_Meep_Sheep:
http://meep-sheep.deviantart.com/art/APH-Little-Ivan-160547085?q=boost%3Apopular%20little%20guy&qo=149



Era noite em que eu jogava com outros parceiros, em cenas que nem de longe poderiam ser consideradas literárias, sequer eram bons jogos de RPG, eram mais uma tentativa tosca de sexo virtual a que não me presto. Se as permito é para ver até onde vão, e se dali se poderia extrair alguma literatura. Quase nunca é possível, então, a respeito de uma dessas cenas cruas de mau gosto, eu perguntei a Ys:
Você consegue notar que não gosto da coisa fácil assim? eu gosto da palavra, não da fábula. Quero que a palavra dê conta de tudo que rola entre as personas, como os signos musicais que são onda e quebra de ondas, não que falam sobre.

Ys disse:
eu noto sim.. noto pelo Mic....

E eu respondi:
Quero ver o desejo ou o temor da outra persona encarnado nas palavras que o jogador usa.

A parceira completou:
A moça é cheia de putices! ahUAHUAHua

Concordei, acrescentando:
Sem consistência! Uma palavra do Mark, como "carinha", por exemplo, é muito mais carne e tesão que "me toque menino". "Carinha" me parece isto: "Moleque, você é uma delícia, me deixa de pau duro, mas, isto é terrível e preciso disfarçar, usando um diminutivo pra você, que me ajude a não esquecer de que você é criança", estou certo?

E a adesão de Ys veio:
está certíssimo... adiciono a tudo isso mais uma coisinha: "... e, mesmo que você me faça sentir como um garoto, de alguma forma muito estranha que eu não sei como funciona, isso também me dá muito medinho e preciso chamá-lo por esse apelido que te dei... é confortável, me dá a ilusão de ter alguma autoridade sobre o que você pode fazer..."

é tudo isso junto.


Trauma_Kids__Little_Guy_by_speedyrawr
http://speedyrawr.deviantart.com/art/Trauma-Kids-Little-Guy-175751021?q=boost%3Apopular%20little%20guy&qo=102


Eu gosto demais que Mark queira ter esse controle, é necessário para a beleza do texto. Nas entrelinhas das definições, dos significados e explicações da palavra “carinha” é que as cenas se constroem e vivem, apelando para a lonjura que habita o corpo dos vertebrados, a gelatina vivificada que se chama vida, organismo, humanidade, sendo, a rigor, a sensação quente e melodiosa de estarmos tão presentes na vida como se jamais nada nem ninguém fosse morrer. Portanto, "carinha" é uma conquista que os signos fazem, aprisionando os autores nesta trama de sono, sonho, madrugadas, o resto não é nem vida, nem é nada.




domingo, 16 de janeiro de 2011

Sexo, doces e Dead Flowers - como nasce uma banda de rock'n'roll


Três meses de jogos com Ys. A narrativa evolui rica e homogênea. Tara Barka, a primeira personagem que Ys pôs em cena tem companheiros bem elaborados, e não são poucos. As “pessoinhas de Ys” são os pais de Tara: Malik Barka e Sinéad Burke; um mercador de opium do Marrocos, e uma feiticeira da Irlanda. Malik é um carniçal dervixe (religioso, monge mulçumano, sufista). Sinéad foi modelo nos anos 1990 e hoje é uma estilista. A eles juntam-se todos os componentes da banda criada pela autora (Mark Hills – compositor, vocalista e guitarrista; Milla – Milena Novák, baixista; Paul “Mars” Taylor – baterista; Morgan Allen – pianista, maestro e arranjador; Phil Jones - guitarrista) e inspirada na música homônima dos Roling Stones: “Dead Flowers”. Isso dá aos jogos e ao futuro livro Purple Rain um tempero jornalístico à la “cena alternativa chic”, como o leitor pode experimentar nesta postagem aperitivo e, depois, lendo o livro em papel.

A primeira vez em que a banda é mencionada acontece quando Ys narra a primeira transa de Tara Barka e Mark Hills, o vocalista dessa banda, em jogo da madrugada de 01 para 02 de novembro de 2010. A banda vai nascendo conforme também a relação de Micael e Tara se delineia, é deles também um primeiro encontro:

“Estão todas erradas, foi maravilhoso!”, foi a primeira coisa a surgir na cabeça da garota depois que o cuidadoso Mark tirou seu quente corpo de cima dela, sua mente desmentia as afirmações de suas amigas mais velhas sobre “a primeira vez”. Sua relação com Mark foi a coisa mais próxima de um namoro real que Tara já teve e foi justamente dessa relação que brotou a flor negra, de cheiro noturno de sua inconstância espacial e afetiva. Os olhos de Tara jamais se fecharam por completo, Mark passou a ter o rosto de Lestat e sua presença começava a tornar rançosa a relação dela com o seu ídolo, uma vez que seu desejo nunca poderia ser saciado pelo rapaz. Mark havia ganhado o mundo, sua banda estourou no ano seguinte à partida de Tara, “Eyes of Desire” (Olhos do Desejo) foi o primeiro sucesso de “Dead Flowers” (Flores Mortas, uma referência à música dos Stones).

Tara se voltou para Micael: “Eu gosto de estrelas porque elas estão sempre brilhando, Micael, seja de dia ou de noite. Quando chamo alguém assim é o maior elogio que eu posso fazer.” disse, tentando desviar o assunto, mas aqueles olhões pregados no rosto de Micael, absorvendo o pouco brilho que entrava pelas janelas das escadas em espiral e refletindo de volta uma luz etérea, como se suas pupilas cuspissem no ar íons roxos no espaço escuro daquele lugar guardado, intocado pelo mundo esquisito do lado de fora, fez Tara voltar ao tópico primeiro: “Aquele que liga ao som de Purple Rain é alguém que merece um pouquinho do meu tempo, mas só o suficiente para me fazer voltar à chuva roxa desses seus olhões, Micaelzinho!”. Tara havia encontrado Mark só uma vez depois de sua partida de Londres, num show da Dead Flowers em Nova Iorque, há dois anos, e trocaram celulares.

Tara não queria encontrá-lo, mas nutria um carinho nascido da parte mais afetiva de seu relacionamento com Mark que a impedia de ignorá-lo por completo, conversavam quase semanalmente por telefone. “Estou em Montreal, Tara”, “Agora estou em Austin”... “Entrei em contato com sua mãe e pedi para ela criar os figurinos de minha nova turnê, Tara. Escuta, ela sabia de nós dois?”, não achou estranha a pergunta, Sinéad era a ex-modelo e atual estilista mais famosa que a Irlanda já produziu e Tara nunca conseguiu esconder nada dela.

Fez Micael sentar no sofá e abriu a porta de vidro, guardada por cortinas adamascadas, que dava para uma sacada com muitas plantas. Sentiu o ar ainda gelado daquela noite invadir a sala, fechou os olhos para sentir melhor; nesse momento, se Micael estivesse lançando mão de sua curiosidade de menino, poderia notar que as plantas do lado de fora não se mexiam com a ventania atravessando a sacada e invadindo o pequeno living do apartamento. Tara voltou à frente de Micael e, ainda de pé, disse: “E então, Micael, você veio comigo...”, pôs a mão no ombro do menino e perguntou como uma mãe perguntaria ao sei filho recém-chegado imundo de uma tarde esportiva, ainda que uma certa malícia inocente pudesse ser percebida na ênfase que dava a algumas palavras “... não quer tirar essa roupa molhada antes que fique manchada pra sempre?”


Nos jogos de 2007 a 2009, Lestat de Lioncourt foi perdendo a capacidade de continuar músico, enquanto ia sendo reumanizado e rejuvenescido pelo sangue sagrado bebido nos lábios de Jesus Cristo. A partir de 2010, já um garoto de 15 anos, afastado da cena musical, ele é forçado a apresentar-se, pelos tutores dele, como Micael Al-Hareck. Em diversas ocasiões tenta compor ou tocar e não consegue, ou consegue de forma insatisfatória, desesperando-se. A música torna-se incômodo e sofrimento, ele a evita o máximo que consegue.

O mais bonito nos jogos com Ys é que Lestat, tendo deixado de ser músico, vai se tornando música. São dele os “Olhos do Desejo”, canção composta muitos anos antes de ele entrar na vida de Tara, Mark e dos componentes da Dead. É bonito ver Ys compondo a canção, criando a banda como presente inegável à minha personagem.

Visceral, rocker, bem ao estilo dos ídolos que apreciamos, o processo de criação de Ys é algo notável como as palavras dele/a mesmo/a revelam, olhem, por favor, leitores, aqui, em trecho de MSN, sem correções, hahahaha!:

olha só que coisa, Daniel: Tara é a rock star irlandesa mulher que eu um dia fui... e Mark é o rock star stonesco e poderoso que eu quis ser nesta vida. estou adorando viver a paixão tão humana desse cara, misturado na sua fama sem importância para ele... ele gosta da "sujeira glam", do álcool frívolo... da fogueira do sacrifício que ele memso acende em cada show da Dead Flowers. Rock Star maduro, que não precisa mais abrir a cauda d epavão para ser notado... o som da sua guitarra, da música e da voz abarca todo o seu ritual pessoal de paixão e destruição... o Dead Flower é vetor de sua visão de mundo... as flores mortas são aquelas mortas e vencidas pela luz da manhã. Como na música dos Stones "mande flores mortas via correio, mande flores mortas para meu casamento."


Mark me lembra outro amor do Lestat:    Nick Dickinson,   um grunge       bem americano, interpretado pela mesma jogadora que fazia a Deusa Bastet, entre 2000 e 2002. Assim que Mark surgiu nestes jogos com Ys eu soube que Micael vai fazer comparações e cair de amores por ele. A mesma típica destruição rocker havia no outro, e o avatar dele era Kurt Cobain, mas, a jogadora desistiu, ouvindo más línguas que diziam que eu incentivava a pedofilia, fiquei tão triste, até porque se eu tivesse alguma parafilia dessas, seria a infantilização, e não a pedofilia, uma vez que interpreto uma suposta criança. Quando comentei isto com Ys, ele disse temer quem confunde e mistura tudo, que essas pessoas buscam “enfear de real a minha linda ficção”. Diante de um parceiro como ela, eu não via a hora de lidar com Mark, porque sei que vai me ajudar a superar o Nick, até porque jogo e texto de Ys são excepcionalmente muito, muito melhores que os da moça de BH, embora eu sinta saudade e tenha muito carinho por ela e nossa antiga parceria.
A Dead Flowers vai nascendo, feita de crítica musical, jornalismo cultural e um caleidoscópio de metáforas, na noite de 21 para 22 de novembro de 2010:


(09:16:49) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Esta sexta-feira era março. Mark decidiu revisitar sua musa, seus olhos da colina de Tara e a encontrou arredia, cuidando de um bibelô emplumado. Ele havia conseguido o sucesso que imaginava ter com Tara sendo sua baixista, a Dead Flowers figurava na capa da Rolling Stone daquele mês. A nova turnê estava sendo documentada pelo cineasta Jonathan Demme de maneira tão inovadora quanto a do filme “Stop Making Sense”, de 1984, no qual o diretor capturou em chiaroscuro a banda Talking Heads do energético David Byrne.

(09:16:56) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: A turnê e o filme foram batizados de “If There Is Something” (Se Há Algo, uma referência à música de 1972 do Roxy Music). O design de figurinos e cenários foi feito por Sinéad Burke, ela própria se ofereceu para a tarefa. Mark escolheu abrir todos os concertos com diferentes versões para a música “Candy's Room” (Quarto de Candy) do cantor Bruce Springsteen. Às vezes, uma versão idêntica, outras vezes as guitarras reclamavam uma fúria punk, destituindo a original de seu encanto de “heartland rock”, e, até mesmo, versões acústicas, solitárias e gelificando na escuridão do palco vazio.

Para que melhor se apreciem o livro e as personagens deste Purple rain, dentro de Vampiros na internet: uma fábula para crianças índigo, é fundamental que, pela ótica de Ys, nessa mesma madrugada de jogos, se percebam as oposições, os traços de cada personagem desse trio: Mark Hills, Tara Barka e Micael Al-Hareck:

(09:17:49) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Nesta sexta-feira, Mark teria entrado no quarto de Candy, esperaria fechar os olhos de Tara como na primeira vez em que a amou, deixá-los derreter, incendiar, queimar... Queria tê-la para si só por mais uma noite. Poderia ter sido nessa sem rock and roll, mas consagrada à chuva roxa do Príncipe Púrpura de Mente Suja, negro diminuto de Minneapolis, contido no toque do aparelho celular de Tara, “Só quero ver você se banhando na chuva púrpura”.

(09:17:54) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Cinco pessoas jogadas pelo globo estavam sendo banhadas pela chuva roxa: Tara Barka com seu sangue escarlate e todo universo rasgando-lhe entranhas, deixando-a surtada em dança, palavras e nomes, amando e odiando a luz que chora, hecatombe do amanhecer dourado ao seu lado, sem saber se estava nascendo de novo ou morrendo eternamente. Micael Al-Hareck, vítreo diapasão diáfano, pérola sagrada em um mundo herético, incontáveis vidas em olhos de violeta infinito, lançando luz como espaçonave de mil Sírius e mil Aldebarãs, insuportável leveza humana contida na imortalidade se esvaindo.

(09:18:00) Tara Barka fala para Micael Al-Hareck: Mark Hills, antimatéria negra ofendida por cada pingo púrpura da chuva cintilante, Mercúrio do rock, mensageiro de Orfeu no Tártaro, querendo o que não pôde ter, esperando que a luz estúpida e artificial de seu celular lhe dê coragem.


Chega   a   noite   do    show   da   Dead Flowers, no estádio Superdome, em   New Orleans, o mesmo  em que, nos anos 1980, Prince brilhara, vestido em tons brilhantes de pavão, na vida real, e, em minha ficção nos anos anteriores a 2010, Lestat de Lioncourt e a banda Satan’s Night, a mesma dos livros de Rice, teria cintilado. Importa agora mostrar os efeitos da performance de Mark Hills e seus pares na percepção de Micael. E depois disso, quem quiser saber mais escreva para marceldeleon1987@hotmail que lhes mandaremos arquivos destes jogos em que professor e aluna errepegistas, partindo das Crônicas vampirescas, de Anne Rice, do livro de sistema de RPG Vampiro – a máscara, de Mark Hagen, e de muito conhecimento de rock’n’roll e vertentes criam a banda Dead Flowers, vetorizando o sagrado urbano contemporâneo:




(04:01:36) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka:      *A beleza do que a banda estava fazendo era muito forte e mexia com o que restava de músico em Lestat de Lioncourt. O amor e a glória daquelas obras-primas nascentes de flores mortas eram dolorosos apesar de aconchegantes. Micael não suportava mais, no exato momento em que começava a despertar e viu o homem pular do palco em direção à platéia, a ele, foi como se a chuva púrpura se concretizasse naquele corpo férreo sintonizado aos equipamentos acústicos, percorrido por muitos volts de eletricidade. O público aplaudia febril e quente, imenso, susto terrível ao menino que despertava, queria estar com Mark e Tara em silêncio. A beleza do show estava pesando no lourinho que há muito havia deixado de ser o Jibral de Malik. O beijo na bochecha fora tão gostosinho, quase como se dado nos lábios indecisos de Mic que bem se esforçaram por roubar os de Mark. A música sem significado algum era, na verdade, uma exorbitância deles, deles, significados, e dos amantes que Milena Novák sabia serem apoteoses

(04:02:03) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: de acontecimentos. Ele os olhava a todos em suas capas de filigranas, sentiu falta dos óculos violeta, parecia estar exposto ao sol e o temia, mesmo sendo humano agora. Desejou que o show acabasse, estava mal se podendo em pé, a dança o extenuara. O estádio o sufocava. Não podia ser ingrato e descortês com aqueles seres que, sabia no fundo da alma, eram amores antigos dele. Milena era uma incógnita e o atraía muito. Seria amor? Desejo? Temor? Curiosidade de infante? Uma vampira no meio daqueles humanos queridos! Isso deveria ser levado em conta, ele levava. Tara parecia não ligar; Mark talvez não soubesse, e Micael não parava de pensar no poder da Tremere, na ilusão que a fazia ser camaleônica e copiar-lhe os olhos violeta. Mark se desculpara e o menino recebera o pedido como veludo no rostinho espetado pela barba a fazer.

(04:02:22) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: Mais que a suprema execução de “Purple Rain”, tão admirável quanto a original, só que mais selvagem e dolorida, esmurrante, um soco na boca do estômago de quem ouvisse, aquele roçar de aspereza contra suavidade tinha sido creme cicatrizante em uma ferida aberta no menino, a ponto de ele ter estendido a mão esquerda indecisa para segurar o homão, inutilmente. O homem o dera à moça, quanto reconforto nisso, Micael se alegrou e anteviu o saborzinho de sorvete de cereja com chantilly ou leite condensado. Lambeu os lábios, pensando nisso, perdera a conexão com a enorme potência estética do que faltava para acabar o show, como uma criança que, de repente, se cansa de ficar na festa dos adultos e adormece pelos cantos. Descera da pose de rockstar, parecia incomodado no vinil suado, incomodado com o barulho da multidão.

(04:02:43) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: O poder e a imortalidade de Milena o faziam recordar-se de tudo que tinha perdido. Estava se sentindo criança, oscilando entre a alegria do começo do show e uma impaciência que a música vinha lhe causando por lhe fugir, por ele não ter mais competência para aquilo em que Hills vicejava como ouro nascendo em copos-de-leite. Infantil, estava com ciúme da música, a amante de Mark que o estava ainda e uma vez mais afastando todos da noite de pijama púrpura. Egoistinha, sim, a criança sagrada nem pensava que estava se permitindo exatamente aquele puro egoísmo tolo. Não era tolo para ele, a dança o levara ao limite do sagrado que podia suportar. Cada vez menos Lioncourt, cada segundo um pouco mais Micael, submerso em desejos urgentes e apressados. Segurou na mão de Tara, quentinho, olhou-a nos olhos e aproximou-de do ouvido, dizendo daquele jeito de cócegas.*

(04:03:11) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: Ainda falta muito, muito? *Se fosse Lestat e se visse, riria de si mesmo, de como podia ser tão naturalmente despropositado, egocêntrico com aqueles seres feitos de generosidade, mesmo se Hills não se visse assim. Jibral. Jibral de Malik queria levar a estrelinha de ametista para longe dali, para brincar com Adorável nos campos coloridos de papoula. Muitas vezes [pode xeretar nos arquivos do pendrive] Lestat drogado se imaginara dançando e cantando em campos de papoulas, aderido ao sagrado insano e bonito, todo sagrado é insano, todo sagrado é bonito. O sagrado não é bonzinho e fácil, não, ele sabia disso, mesmo se o sagrado fossem pipocas de melado e xícaras com chocolate quente. Benditos campos de papoula de Malik!

(04:03:31) Micael Al-Hareck. fala para Tara Barka: Benditos nos séculos dos séculos! Glória ao que é sem princípio! Glória nos séculos dos séculos! Para sempre, Glória! A glória multicolorida de sorvete e confeitos. Micael percebeu que Tara o fazia sempre lembrar-se de Malik, só podia mesmo ser a filha do mercador, o sobrenome, as similaridades, e aquela ametista-estrelinha. Então ele conhecia a dona da Adorável? Adorável era a dona, essa, lírio-laranja. Que engraçado! Ele estava tão criança que quase podia ir caçar pedras com Tara e Adorável. Sentiu tanta saudade de não ter vivido isso. Levou o dedo indicador direito ligeiramente dobrado à boca e lhe mordia a primeira falange, nervoso, repetindo a pergunta.* Demora, chérie, demora?*Poderia parecer desrespeito artístico, não era, ele amava a arte de Hills, estava fascinado por tudo que vira, ouvira e sentira nas fibras do corpo de efebo. Por isso mesmo não suportava o desejo de ter Mark e Tara só para si. Infantil, findando, aquele era Lestat de Lioncourt.